A opinião pública brasileira ficou estarrecida com a infame “passarela da adoção”, realizada em um shopping de Cuiabá, no Mato Grosso, onde um grupo de crianças de 12 anos de idade desfilaram em uma passarela na tentativa de comover espectadores e os convencesse a adotá-las.

Não bastasse o ato em si, promovido pela Associação Mato-grossense de Pesquisa e Apoio à Adoção (AMPARA), o apoio da Comissão de Infância e Juventude (CIJ) da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Mato Grosso (OAB-MT) também causou surpresa e revolta.

É realmente difícil de aceitar que algum infeliz espírito de porco achou que seria o máximo colocar crianças desfilando para serem admiradas e as que fossem consideradas “mais bonitas”, seriam adotadas. Que tipo de ser humano é incapaz de se colocar no lugar de uma criança que, não bastasse a condição de abandono, ainda é humilhada ao ser exposta como um animal a ser apreciado para que, com sorte, desperte a piedade de alguém que a adote. É asqueroso.

Racismo

Há um detalhe que torna esse episódio ainda mais sórdido. Ora, se na cabeça dos organizadores do evento existem crianças “com perfil ideal para adoção”, automaticamente há também aquela que não o possuem. E como seria esse “perfil indesejado”? Dados sobre adoção no Brasil talvez mostrem qual é.

Em 2012, o Conselho Nacional de Justiça fez um estudo sobre adoções no Brasil e revelou um dado assustador. O número de pessoas que desejam adotar no Brasil manteve-se quase cinco vezes maior que o de crianças e adolescentes disponíveis – são 27.298 interessados e 4.985 à espera de uma nova família.

“Na maioria dos casos, os pretendentes têm um perfil de criança desejado. Geralmente é branca, menina, com até quatro anos, não portadora de moléstia nem pertencente a grupos de irmãos. Por isso, o número de pretendentes é bem maior”, destacou o então coordenador do Cadastro Nacional de Adoção (CNA) e também juiz auxiliar da Corregedoria Nacional de Justiça Nicolau Lupianhes.

De acordo com o levantamento, dos inscritos no Cadastro Nacional de Adoção apenas 34,53% são indiferentes à raça do filho (a) pretendido. Dos interessados, 91,03% manifestaram o desejo por adotar brancos. Aceitam pardos 61,12% e negros 34,28% dos pretendentes.

Não foi divulgado em parte alguma nenhum “balanço” da tal passarela. O mais provável é que tenha seguido a infeliz tendência nacional das adoções

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